domingo, 8 de janeiro de 2012

Do riso ao Caús com a cultura Popular do REPENTE

Veja aqui resgates de alguns desafios entre repentistas que você irá encontrar na obra PARA RIR ATÉ CHORAR ... COM A CULTURA POPULAR:





O poeta José Amâncio participava de uma animada Cantoria quando assim falou sobre o amigo Chico Felício, já com quase setenta anos, que ali estava presente para lhe prestigiar:

Felício já namorou

No seu tempo de rapaz.

Já amou, já foi amado,

Hoje é que não ama mais.

Tá qual ferro de engomar,

Solta fumaça é por trás!

Um cantador, apesar de ler a Bíblia, parece não acreditar em tudo que está lá escrito

A Escritura Sagrada

Eu acho um livro bonito,

Mas tem uma coisa nele

Que eu morro e não acredito:

Que é um jumento tirar

De Belém para o Egito.

Lourival Bandeira Lima duelava com o potiguar Domingos Tomaz, quando fez referência a sua origem racial:


Minha mãe foi branca e bela,

E teve bom proceder!
Domingos, notando em Lourival alguns traços que contradiziam o que ele acabava de dizer, lhe respondeu:
Faz vergonha até dizer,

Que sua mãe foi branca e bela;

E este seu cabelo ruim,

Por que não puxou a ela?

Ou seu pai é muito preto,

Ou então, foi truque dela!
Pinto de Monteiro foi convidado para uma refeição numa propriedade do município de Monteiro, onde foi servido, entre outras coisas, queijo fabricado na própria fazenda. À noite, numa cantoria com Joaquim Vitorino, ficou sabendo de certas particularidades que aconteciam durante a fabricação do queijo que ele havia consumido tão prazerosamente. E ele assim externou sua decepção:
Há vários dias que ando,

Com o satanás na corcunda:

Pois, hoje, almocei na casa

Duma negra tão imunda,

Que a prensa de espremer queijo

Era as bochechas da bunda!

Antonio Marinho cantava em São José do Egito (PE). Presente ao recinto estava um doutor conhecido por Edmundo, que pareceu não gostar de algumas brincadeiras ditas pelos cantadores. Mesmo assim, Marinho não se intimidou diante daquela culta figura:

Parece que não gostou

Nobre doutor Edmundo,

Que é o doutor mais feio

Que eu já vi neste mundo,

Que o fundo parece a cara

E a cara parece o fundo.
Lourival Batista cantava um Mourão com Manoel Xudu, quando uma pessoa da assistência depositou na bandeja uma quantia irrisória, só por gozação. Mas Lourival não gostou daquilo e iniciou decepcionado um Mourão:

Ele só deu um cruzeiro

Pra mim e Manoel Xudu!

Xudu prosseguiu:

Não tem nada companheiro,

Qualquer roupa serve ao nu.

Mas Lourival discordou:

Menos gravata e colete

Porque não cobrem o cacete

Nem a regada do cu.

No Clube Português, em Recife, Pinto de Monteiro e Lourival Batista faziam uma saudação ao Cônsul de Portugal, um fidalgo de nome Felipe, que estava acompanhado de sua esposa, uma senhora de origem francesa, de nome Boucier. Foi quando Pinto veio com essa:
Colega, vamos cantar,

Para um casal de Lisboa.

Felipe é o nome dele,

Boucier sua patroa.

Dela não sei o destino,

Mas o seu nome tira um fino

Numa coisa muito boa.

Zé Limeira foi convidado para abrilhantar a festa de inauguração de uma fábrica de confecções. Presenteado com um novo uniforme, ele logo foi prová-lo. E quando lhe perguntaram como tinha ficado a nova peça de roupa, ele respondeu:

Tem confecção bem feita

A roupa que eu recebi.

No mesmo instante vesti

E a calça ficou perfeita,

Porém um pouco estreita

Pelas curtas dimensões,

Apertei os seus botões,

Ficou arrochada na coxa,

Acumulei a minha trouxa

Mas sobrou os meus cunhões.

Quando cantava em Porto Seguro (BA), um certo cantador, revoltado com as inúmeras notícias sobre roubos e corrupção divulgadas pela imprensa, tentou mostrar para o público que essa prática já era muito antiga. E cantou a sua versão de como tudo começou:
Conta a história em Lisboa,

Que Pedro Álvares Cabral


Gritou pra seus marinheiros

Ao ver o Monte Pascoal:

“Agora já temos um canto

Pra nós roubar, pessoal!”
A sensualidade da mulata brasileira tem o poder de inspirar poetas apaixonados, como no caso da quadrinha a seguir:

Ai, morena, pede a Deus

O que eu peço a São Vicente:

Que junte nós dois, um dia,

Numa casinha sem gente!
Um pobre aleijado que vivia a mendigar pelas ruas de Fortaleza e que atendia pelo nome de “Zé Menino”, também era metido a embolador. A ele é atribuída a autoria dos versos abaixo:

Muié casada

Que duvida do marido,

Leva mão no pé de ouvido

Pra deixá de duvidar.
O violeiro cearense João Siqueira cantava com o piauiense Domingos Martins da Fonseca. O tema abordado, numa determinada hora, era Mulher. Domingos fez uma série de elogios, mas Siqueira assim resumiu seus pensamentos:
Mulher ao nascer é um anjo;

Sendo moça, um sol nascente,

Sendo noiva, uma esperança,

Sendo esposa, uma semente,

Sendo mãe, é uma fruteira,

Sendo sogra, é uma serpente!

A autoria da estrofe abaixo é atribuída a um negro velho, conhecido apenas por Severino, que residia na cidade de Quixaba (CE):

Tem quatro coisas no mundo

Que atormentam um cristão:

Uma casa que goteja,

E um menino chorão,

Uma mulher ciumenta

E um cavalo tanjão.

Mas o cavalo se troca,

A casa, a gente reteia,

O menino se acalanta,

Na mulher se mete a peia.

Ao cantar com Severino Pelado, Ascendino Araújo desabafou suas mágoas, decepcionado com algumas mulheres com quem manteve certo relacionamento. Mas Pelado saiu em defesa da mulher:

Não me fale de mulher,

Pois toda mulher é boa,

Seja honesta ou desonesta,

Mesmo sendo mulher à-toa:

Se não serve pro marido,

Serve pra outra pessoa.

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